Pontos principais
- A GOLD recomenda que todas as pessoas com DPOC recebam a prescrição de um broncodilatador de resgate de ação curta, como o salbutamol (albuterol), para alívio imediato.
- A GOLD 2026 recomenda a combinação de um beta-agonista de ação prolongada com um antimuscarínico de ação prolongada (LABA+LAMA) como primeiro tratamento de manutenção para a maioria das pessoas com sintomas ou exacerbações frequentes.
- Um corticosteroide inalatório (ICS) é acrescentado principalmente em pessoas com exacerbações e contagem de eosinófilos no sangue de pelo menos 300 células/µL (ou de pelo menos 100 células/µL após exacerbações em uso de LABA+LAMA). Os ICS aumentam o risco de pneumonia.
- Mais de dois terços das pessoas cometem pelo menos um erro com o inalador. A técnica deve ser demonstrada, verificada e corrigida em todas as consultas de acompanhamento.
- Os medicamentos para parar de fumar (vareniclina, bupropiona, reposição de nicotina) aumentam as taxas de cessação. Em dezembro de 2016, a FDA retirou o alerta em tarja (boxed warning) da vareniclina sobre efeitos na saúde mental.
As classes de inaladores
- SABA (beta2-agonista de ação curta, como o salbutamol): abre as vias aéreas. A OMS observa que os broncodilatadores de ação curta começam a agir em segundos e duram de 4 a 6 horas. Usado para alívio e durante as exacerbações.
- LABA (beta2-agonista de ação prolongada, como salmeterol, formoterol ou vilanterol): um broncodilatador de ação prolongada para a manutenção diária.
- LAMA (antagonista muscarínico de ação prolongada, como tiotrópio ou umeclidínio): outro broncodilatador de ação prolongada. A bula do tiotrópio o descreve como tratamento de manutenção uma vez ao dia, e não como medicamento de resgate.
- ICS (corticosteroide inalatório, como fluticasona ou budesonida): reduz a inflamação das vias aéreas. Na DPOC, a GOLD o utiliza combinado com LABA+LAMA, e não com um LABA isolado.
O que a GOLD 2026 recomenda
A GOLD agrupa as pessoas por sintomas e histórico de exacerbações. O grupo A tem menos sintomas, o grupo B mais sintomas e o grupo E histórico de exacerbações. Em 2026, a GOLD ajustou os grupos para que até mesmo uma exacerbação moderada seja contada.
- Grupo A: um broncodilatador, de preferência de ação prolongada se estiver disponível e for acessível, mantido se ajudar.
- Grupo B: iniciar LABA+LAMA. Se uma combinação não for adequada, um LABA ou um LAMA isolado.
- Grupo E: iniciar LABA+LAMA. Considerar a terapia tripla (LABA+LAMA+ICS) desde o início se os eosinófilos no sangue forem de 300 células/µL ou mais. A GOLD não incentiva LABA+ICS na DPOC. Se for necessário um ICS, a terapia tripla é preferível.
- DPOC com asma: tratar como asma. Nesse caso, um ICS é indispensável.
Acompanhamento (GOLD, figura 3.9):
- Falta de ar persistente com um único broncodilatador de ação prolongada: passar para LABA+LAMA. Se a falta de ar continuar, verificar o dispositivo e a técnica, acrescentar reabilitação pulmonar, considerar a ensifentrina onde estiver disponível e procurar outras causas.
- Uma ou mais exacerbações moderadas ou graves em uso de LABA+LAMA: acrescentar um ICS se os eosinófilos forem de 100 células/µL ou mais. Um benefício maior é mais provável com contagens mais altas.
- Exacerbações persistentes: considerar roflumilaste (VEF1 [FEV1] abaixo de 50% com bronquite crônica), azitromicina (de preferência em pessoas que não fumam mais, levando em conta a resistência aos antibióticos) ou um biológico se os eosinófilos forem de 300 células/µL ou mais. Os biológicos são o dupilumabe (se houver bronquite crônica) e o mepolizumabe.
- Não suspender um ICS que esteja funcionando, a menos que haja pneumonia ou outro efeito colateral importante. As exacerbações são mais prováveis após a suspensão se os eosinófilos forem de 300 células/µL ou mais.
Inaladores únicos que combinam medicamentos podem ser mais práticos e melhorar a adesão.
Medicamentos mais recentes para DPOC
- Ensifentrina (inibidor duplo de PDE3 e PDE4, 3 mg duas vezes ao dia por nebulizador a jato): aprovada pela FDA em junho de 2024 para o tratamento de manutenção da DPOC em adultos. A GOLD observa que ela melhora a função pulmonar e a falta de ar, mas atualmente só está disponível nos EUA.
- Dupilumabe: aprovado pela FDA para DPOC em setembro de 2024, e o mepolizumabe em maio de 2025. Ambos são injetáveis, aprovados como tratamento de manutenção complementar para adultos com DPOC inadequadamente controlada e fenótipo eosinofílico.
Técnica inalatória
- A GOLD relata que mais de dois terços dos pacientes cometem pelo menos um erro. Os erros comuns envolvem a força e a duração da inspiração, a coordenação, o preparo da dose, a expiração prévia e o prender a respiração depois.
- Os inaladores pressurizados (pMDI) e os inaladores de névoa suave precisam de uma inspiração lenta e profunda. Os inaladores de pó seco precisam de uma inspiração vigorosa. Se a pessoa não conseguir inspirar com força, trocar para um pMDI com espaçador ou para um inalador de névoa suave.
- Usar um espaçador se houver qualquer dúvida sobre a técnica com o pMDI. Os espaçadores também reduzem a quantidade de corticoide depositada na boca.
- A bula sozinha não basta. Pedir à pessoa que mostre como usa o dispositivo ("teach-back") e verificar de novo regularmente. Problemas de técnica são mais comuns em idosos, principalmente por redução da destreza ou da capacidade cognitiva.
- Enxaguar a boca com água e cuspir após usar um inalador com ICS, para reduzir o risco de candidíase oral (sapinho).
Medicamentos para parar de fumar
A GOLD recomenda que todas as pessoas que fumam sejam fortemente incentivadas e apoiadas a parar, e observa que medicamentos e aconselhamento aumentam de forma confiável as taxas de cessação a longo prazo. Em fumantes com DPOC, a abstinência prolongada com medicamentos variou de 14% a 27%, em comparação com 5% a 9% com placebo. A GOLD afirma que ainda não há evidências suficientes para recomendar cigarros eletrônicos como auxílio para parar de fumar.
- Vareniclina: começar 1 semana antes da data de parar (ou parar entre os dias 8 e 35). Aumentar de 0,5 mg por dia para 1 mg duas vezes ao dia por 12 semanas, com mais 12 semanas para quem parou. A FDA retirou o alerta em tarja em dezembro de 2016, após um grande estudo de segurança. A bula ainda alerta sobre alterações de humor e de comportamento, convulsões, efeitos mais fortes do álcool, lesões acidentais, sonambulismo e possíveis eventos cardiovasculares em pessoas com doença cardíaca. Reduzir a dose na insuficiência renal grave (depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min).
- Bupropiona SR (liberação prolongada): começar 1 semana antes de parar, 150 mg por dia durante 3 dias e depois 150 mg duas vezes ao dia, com intervalo de pelo menos 8 horas. Não usar em caso de distúrbios convulsivos, transtornos alimentares atuais ou anteriores, retirada abrupta de álcool ou sedativos, nem com inibidores da MAO. Doses menores são necessárias na insuficiência hepática. Ela traz o alerta em tarja dos antidepressivos sobre pensamentos suicidas em crianças, adolescentes e adultos jovens.
- Reposição de nicotina (adesivo, goma de mascar, pastilha, inalador, spray nasal, comprimido sublingual): a GOLD lista infarto ou AVC recentes como contraindicações e aponta evidências de que ela pode ser iniciada mais de 2 semanas após um evento cardiovascular. A irritação no local de aplicação é comum. A bula do adesivo orienta consultar um médico antes em caso de doença cardíaca, batimento cardíaco irregular, pressão arterial não controlada, úlcera no estômago, diabetes ou convulsões. Na gravidez ou amamentação, usar apenas por orientação de um profissional de saúde. A bula da bupropiona informa que ela pode ser usada com um adesivo de nicotina.
Segurança: o que verificar
- Medicamentos de resgate não substituem o tratamento de manutenção. Precisar de mais doses de resgate do que o habitual é sinal de piora. O uso excessivo de SABA pode ser perigoso. LAMA, LABA e ensifentrina não são para sintomas agudos.
- Não duplicar beta-agonistas de ação prolongada (por exemplo, dois inaladores que contenham LABA), pelo risco de superdosagem.
- Beta-agonistas: podem ocorrer palpitações, tremor, potássio baixo e aumento da glicose no sangue. Usar com cautela em doença cardíaca e distúrbios convulsivos, e com medicamentos que prolongam o intervalo QT ou diuréticos não poupadores de potássio.
- LAMA: podem piorar o glaucoma de ângulo fechado e a retenção urinária. Usar com cautela em caso de próstata aumentada ou obstrução do colo da bexiga, e procurar ajuda com urgência em caso de dor nos olhos, visão embaçada ou dificuldade para urinar.
- ICS: pneumonia, candidíase oral, rouquidão e manchas roxas na pele. A GOLD lista maior risco de pneumonia em pessoas que fumam, têm 55 anos ou mais, tiveram exacerbações ou pneumonia anteriores, têm IMC abaixo de 25, mais falta de ar ou obstrução grave ao fluxo de ar. As bulas também citam possível perda óssea, glaucoma e catarata com o uso prolongado. Inibidores potentes do CYP3A4 podem aumentar os efeitos do corticoide.
- Ensifentrina: foram relatados efeitos psiquiátricos, incluindo suicidalidade. Avaliar benefícios e riscos em pessoas com histórico de depressão ou pensamentos suicidas.
- Rins, fígado, gravidez e idosos: a vareniclina precisa de dose menor na insuficiência renal grave e a bupropiona na insuficiência hepática (veja acima). A reposição de nicotina na gravidez ou amamentação só deve ser usada por orientação de um profissional de saúde. Erros com o inalador são mais comuns em idosos, por isso a técnica e a escolha do dispositivo exigem verificações extras. Converse com quem prescreveu sobre o uso de qualquer inalador na gravidez, em vez de interromper o tratamento.
- O broncoespasmo paradoxal (chiado súbito logo após uma dose) pode ocorrer com qualquer inalador. Interrompa o uso e procure ajuda.
Perguntas frequentes
Por que não recebo um inalador com corticoide para a DPOC?
A GOLD prefere LABA+LAMA para a maioria das pessoas. O ICS acrescenta um risco de pneumonia, e seu benefício sobre as exacerbações está ligado à contagem de eosinófilos no sangue; por isso, ele é acrescentado quando as exacerbações continuam e a contagem indica que ele vai ajudar.
Posso usar meu inalador de manutenção em caso de falta de ar repentina?
Não. Use seu medicamento de resgate de ação curta e siga seu plano de ação. Se precisar dele muito mais do que o habitual, entre em contato com seu médico.
A vareniclina é segura se eu já tive depressão?
A depressão não é uma contraindicação na bula dos EUA, mas a bula orienta observar mudanças de humor ou de comportamento durante a tentativa de parar de fumar. Se elas ocorrerem, suspenda o medicamento e procure um profissional de saúde.
Fontes
- Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease. 2026 GOLD Report. goldcopd.org
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Ficha informativa sobre DPOC. who.int
- Bulas da FDA dos EUA: albuterol HFA, tiotrópio (Spiriva Respimat), furoato de fluticasona/umeclidínio/vilanterol (Trelegy Ellipta). albuterol, tiotrópio, Trelegy
- Bulas da FDA dos EUA: ensifentrina (Ohtuvayre), mepolizumabe (Nucala). ensifentrina, mepolizumabe
- Bulas da FDA dos EUA: vareniclina, bupropiona SR, adesivo transdérmico de nicotina. vareniclina, bupropiona SR, adesivo de nicotina
- FDA dos EUA. Pacote de aprovação do suplemento do Chantix (vareniclina), 16 de dezembro de 2016 (retirada do alerta em tarja). accessdata.fda.gov
- FDA dos EUA. Histórico de aprovações no Drugs@FDA (ensifentrina, dupilumabe, mepolizumabe). accessdata.fda.gov
Este artigo tem fins educativos e não substitui a orientação de um médico, enfermeiro ou farmacêutico que conheça o histórico da pessoa. Marcas de inaladores, dispositivos e aprovações variam de país para país.